Recentemente foi divulgado pelos media que numa escola do País um aluno transitou com um elevado número de níveis negativos. Foi com alguma perplexidade que registei a inquietação manifestada por alguns comentadores nacionais, face ao sucedido nessa escola.
A situação relatada está profundamnete enraizada no sistema de ensino Português desde a implemetação do mal fadado Despacho 98-A/1992 que tudo permitia em nome de um ensino que não penaliza quem não trabalha, nem responsabiliza os que por obrigação devem velar pela educação dos nossos jovens, não falo dos professores mas dos respectivos encarregados de educação.
Quando um aluno frequenta um determinado ciclo de ensino, tudo é possível para garantir o seu sucesso, mesmo que o discente em nada tenha contribuído para garantir essa qualificação. Por exemplo, as faltas dadas (mesmo as injustificadas pelos mais gravosos actos), são meros actos administrativos que em nada penalizam o aluno e as respectivas famílias. Muitos deles "arrastam-se" indefinidadamente pelas escolas com as mais variadas finalidadas, excepto a de ter de estudar. Estar na escola é ter de estudar, "perder" tempo em tarefas menos prazerosas que enviar SMS, consultar os perfis dos amigos nas redes sociais, copiar filmes ou estar a jogar nas mais variadas consolas. As tarefas educativas são hoje tidas como profundamente aborrecidas e portanto negligenciáveis por alunos e seus educadores. Quem são os encarregados de educação que se responsabilizam pelo acompanhamento das aprendizagens dos seus educandos? Será que os encarregados de educação verificam os cadernos diários e procuram garantir que os seus educandos realizam as tarefas educativas propostas pelos seus professores? e organizar uma metodologia vivencial dos jovens em idade escolar que permita que estes repousem um número de horas compatíveis com a sua idade e respectivas obrigações escolares?
Actualmente a maioria dos alunos de muitas escolas e respectivas famílias em nada respeitam a instituição e os que nela trabalham, sendo a escola mais um local que serve apenas e só de complemento do RSI ou como depósito onde estão os seus educandos. A escola é deste modo um meio extremamente funcional que permite que as existências quotidianas dos encarregados de educação decorram sem grandes sobressaltos.
Mas passemos a um outro aspecto relacionado com a postura atitudinal dos alunos. Se um dado aluno destruir, vandalizar a instituição ou ofender a integridade daqueles que nela trabalham, nada lhe é imputado, uma vez que existe uma desculpabilização legislativa do jovem face aos mais gravosos actos. Esta visão profundamente desculpabilizadora dos nossos jovens está profundamente enraizada no ADN do nosso sistema educativo, que foi sendo sucessivamente modelado pelos vários políticos e governos que estiveram à frente das políticas educativas do nosso País. Quando se invocam modelos de sistemas de ensino profundamente funcionais de alguns países europeus, esquece-se ou é omitido, que nesses países as respectivas famílias, escola, e outras instituições que orbitam à sua volta são efectivamente parceiros no processo educativo. Se um aluno mantiver certo tipo de postura face à escola e aos actores que nela desempenham os mais variados papeis, tais actos implicam consequências, nomeadamente severas sanções, quer para o aluno quer para as respectivas famílias.
O grau de exigência da escola pública atingiu mínimos históricos, a motivação dos profissionais que nela trabalham entrou há muito tempo num profundo declínio que não mostra sinais de inversão. As gestões das escolas estão cada vez mais ligadas à tutela e caminham num sentido de aceitação passiva das políticas educativas estéreis dos sucessivos governos que se limitam a garantir a qualquer custo, que as estatatísticas educativas lhes são favoráveis.
Com eleições legislativas a breve prazo, não vi ainda qualquer partido a apresentar propostas/soluções para inverter um processo de destruição da escola pública há muitos anos iniciado em nome de uma escola que cria igualdade e dá as mesmas oportunidades a quem a frequenta. Esta falsa escola igualitária não pode competir com a multiplicidade de estabelecimentos privados em que a regra é a homegeneidade de quem a frequenta e cuja finalidade dos seus alunos é o trabalho e o esforço para alcançar o sucesso no futuro cada vez mais rodeado de incertezas. As regras impostas a quem frequenta o ensino privado, faz toda a diferença em relação à escola pública. Falo em regras para não usar o termo disciplina, uma vez que face ao nosso percurso de regime totalitário do passado, a palavra tem ainda uma forte conotação negativa, que certa esquerda bolorenta e saudosista de um passado revolucionário, tão orgulhamente contesta para o nosso sistema de ensino. Uma escola sem regras e sem disciplina é um barco à deriva que só com muita sorte conseguirá atingir bom porto.
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